Notas para estudo do percurso das mulas em Portugal II

Castelo Branco, pormenor de gravura do séc.XIX
Dois muares (eguariços) fazem serviço de sela
Com base no Arrolamento Geral dos Gados e Animais de Capoeira, sabe-se que o número de muares existentes em Portugal em 1852 se cifrava em cerca de 50 mil exemplares. Por seu turno, o número de cabeças de gado cavalar rondava as 70 mil unidades.
Pouco tempo depois, em 1870, estes números elevam-se, respectivamente, para 60 e para 80 mil.
É a partir desta data que o número de muares regista um crescimento exponencial, ultrapassando em larga medida o número de indivíduo de raça cavalar.
Tanto assim é que, já em 1925, o número de muares ronda os 120 mil indivíduos, enquanto o números de cavalos se fica pelos mesmos 80 mil de 1870, cifra esta que ainda se vai encontrar inalterada em 1934, quando, nessa data, o efectivo de muares é já de 130 mil.
Ora, este aumento deve encontrar correspondência no fomento da agricultura que se registou então em Portugal, havendo necessidade de esforços complementares para romper as terras que até ali permaneciam incultas ou para fazer render mais as que já eram cultivadas. Havendo mais lavoura, a produção aumenta e aumentam também os carretos. Para tudo isso se recorria à força de boas parelhas de mulas, donde este aumento tão significativo.
Considerando, por um lado, como atrás ficou dito, que em Portugal sempre se preferiram bons exemplares eguariços, e considerando, por outro, que para tal efeito é necessário recorrer a boas eguadas, e finalmente levando em linha de conta o aumento tão significativo do número de muares num período de tempo relativamente curto, é fácil deduzir o resultado a que chegou a equicultura em Portugal neste período de forte incremento da indústria mulateira.
Com efeito, ao passo que a produção de muares regista um crescimento apreciável, a produção cavalar sofre uma estagnação digna de nota.
Muitos proprietários e lavradores, desacreditados da produção cavalar, em virtude do baixo preço dos equinos, por oposição ao gado muar, com uma forte procura não só em Portugal mas alem fronteiras (o nosso maior mercado externo foi a França), pelo seu maior rendimento nos trabalhos, mandavam beneficiar as suas éguas do contrario, isto é, lançavam-nas a jumento, e só as mandavam beneficiar do natural, ou seja, de cavalo, quem tendo haveres, gostava de possuir bons cavalos.
Para produzir boas muares, as éguas eram lançadas a burros de marca, sobretudo do troco europeu, importados de Espanha para o efeito, ou descendentes de bons exemplares espanhóis ou franceses, que existiam nas paradas particulares ou nos postos de cobrição do Estado.
As feiras de mais nomeada, no que tocava a negócio de muares, em meados do século XX, eram as do Alentejo, nomeadamente de Castro Verde, de Almodôvar e de Garvão. Ali acorria gente de todo o país, procurando bons exemplares, sobretudo negociantes de gado, que ali iam mercar produtos para vender a peso de ouro em outros locais.
A recria de muares também assumiu relativa importância, chegando a ser mais rentável que a de bovinos. Para isso, as crias eram vendidas dos seis aos oito meses pelos produtores, evitando-se a sua completa criação junto das éguas, e depois recriadas e amansadas pelos lavradores para posterior venda, já completamente preparadas para o trabalho.

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