O último Nómada




Nina é um cigano da velha guarda que ainda se dedica ao negócio das bestas.
No concelho de Idanha-a-Nova ainda são os ciganos quem mais negoceia com bestas. A nova geração prefere já tratar com cavalos, dada a sua maior procura em relação às mulas ou aos burros, mas os da velha guarda ainda fazem perdurar os tratos ancestrais, sobretudo junto da população envelhecida, que ainda teima em cultivar a sua courela com recurso ao velho arado e à charrua.
Nina, alcunha de António Silva, é, segundo creio, o último cigano errante do concelho de Idanha-a-Nova. Na verdade, tal como a maioria dos ciganos, tem já uma casa de morada, em Alcafozes, mas passa a maior parte do tempo em viagem entre as freguesias, à procura de negócio. Numas terras compra. Acha defeitos às bestas, diz que são velhas, que só servem para o bicho e compra-as se for a bom preço, o mais barato que puder regatear. Já noutra terra, o mesmo animal tem todas as qualidades: é novo, é manso, se é burro é como um macho, se é macho tem mais força que um cavalo. E depois há expressões engraçadas: tem umas mãozinhas de seda, é um cestinho de mão, nem pintado num pano, é um luxo, é uma “catigoria”. É este valor acrescentado que Nina empresta ao animal, e não é de estranhar que um burro comprado por 50 euros na aldeia X, valha na aldeia vizinha 150 ou 200 euros . É assim que ele ganha a vida.
De uma aldeia para a outra, o cigano Nina desloca-se na sua carroça, para a qual reserva sempre uma besta capaz: uma égua ou um macho valente. Atrás arreata os restantes animais e segue viagem. Fareja os negócios e onde lhe parece que pode ganhar uns cobres estaciona. Arma a barraca, põe as bestas a pastar e calcorreia o povo. Vai aos montes, às quintas, não sem antes se informar de como está o mercado, junto da comunidade cigana da localidade, se entre ambos não há rivalidade. Os ciganos são muito ciosos, e ficam mal dispostos se um cigano de outra terra vende uma besta na sua.

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