30.11.05
Agricultura nos Campos de Idanha. Exposição


Centro Cultural Raiano
No texto anterior coloquei em evidência a exposição patente no Centro Cultural Raiano (CCR- 1997), em Idanha-a-Nova, intitulada “Agricultura nos Campos de Idanha”. Trata-se de um conjunto notável de alfaias, utensílios, artefactos, máquinas e fotografias que dão conta de como era a agricultura praticada na zona no século XX. Os objectos ali expostos vão desde a zorra, utilizada para arrojar grandes calhaus, até à maquina a vapor, força motriz das malhadeiras. Pelo meio ficam carroças, carros e carretas, charruas e arados, trilhos e grades, cantaras e engarelas, belfas e albardas, sogas, tamões e tamoeiros, potes e vasilhas, e o mais que é dado haver numa casa de lavoura. Digna de se ver, sim senhor.
Como não podia deixar de ser, no que a nós interessa, relevam as alfaias tocadas a bestas. Interessante uma ceifeira, puxada por uma parelha de cavalos, e lá estão também as cangas, não faltando um exemplar que servia para uma parelha composta por uma vaca e um burro. Desta forma o lavrador tinha força de tracção, leite e um bezerro por ano.
É daquelas exposições que enche a vista e o coração. Cada peça conta uma história e todas essa peças fazem a história do concelho de Idanha-a-Nova.
“Agricultura nos Campos de Idanha” foi instalada no ano da inauguração do CCR, com o estatuto de exposição temporária. Desde então, milhares de pessoas puderam visitá-la, de tal forma que já se tornou o ex-líbris do CCR e um dos mais interessantes cartões de visita do concelho. Só falta assinar contrato e dizer que o tempo dela é para sempre.
29.11.05
O Burro, a Choça e a Roupeira- metáfora para um modo de vida

Fotografia exibida na exposição Agricultura nos Campos da Idanha. Centro Cultural Raiano, Idanha-a-Nova.
(Segunda metade do século XX)
Já referi noutro texto de que forma os burros estavam presentes na vida quotidiana do mundo rural de não há muitas décadas. Vejamos agora mais um exemplo de como, de facto, assim era. Desta vez o nosso amigo acompanha uma roupeira, isto é, a mulher a quem incumbe fazer e tratar os queijos, que por norma é a mulher do pastor, cujas mãos, como repete o povo, deveriam ser bastante frias para que o queijo tivesse a melhor qualidade. A fotografia que ilustra o texto, e lhe serviu de mote, acha-se exibida numa exposição notável que está patente no Centro Cultural Raiano, em Idanha-a-Nova, sobre a agricultura nos campos de Idanha e que recomendo vivamente.
Na imagem, um burro e uma mulher sobressaem diante de uma choça. O burro está devidamente albardado. Sobre o albardão, sacas de serapilheira protegem o pano de linho cru que por norma forra o arreio. De notar, para alem do chocalhinho que traz ao pescoço, é a embocadura. Geralmente, aos burros apenas é reservado o freio quando engatados à carroça, raramente em lavouras, preferindo-se aí a serrilha, e só excepcionalmente quando fazem serviços de sela. Acontece que este burro dá ares de teimoso, aliás como indica o pescoço levantado em posição ameaçadora. Assim, para melhor o dominar, a nossa amiga roupeira prefere o freio, como atesta o documento.
Outro pormenor interessantíssimo da fotografia agora reproduzida é a própria choça. Trata-se de um exemplar da arquitectura popular hoje apenas registado em documentos gráficos, mas que outrora pontilhou com relativa abundância não só os campos da Idanha mas, de um modo geral, a paisagem de toda a Beira Baixa. Estas construções efémeras, em madeira e em colmo, serviam de casa de habitação aos pastores. Normalmente, uma família ou grupo de pastores tinha várias destas dependências. Uma destinava-se a fazer e curar os queijos. A outra destinava-se a dar guarida às pessoas. Ali dormiam, ali comiam, ali se abrigavam da chuva, do vento e do frio, no rigor do inverno beirão. Toda a vida girava em torno da choça, nem mesmo o lar aí faltava, em cujo fogo se aquecia o leite, se fazia o soro e secava o fumeiro.
Conheço várias pessoas que foram criadas em choças, e as mesmas afiançam que eram quentes, impermeáveis e cómodas. Todavia, a nota do que um dia me aconteceu a seu propósito, ilustra o que as mesmas representam para quem as vê por dentro, e não com o interesse diletante de quem as observa enquanto aspecto notável da arquitectura popular portuguesa.
Foi assim: certo dia, tratando de organizar uma exposição etnográfica na minha aldeia, ao abrigo de um programa comunitário destinado aos jovens, ao qual concorri com um grupo informal de jovens, então designado por Grupo Informal de Jovens Raianos Para o Desenvolvimento da Raia Beirã, entendi que talvez fosse interessante construir uma choça, para os mais novos contextualizarem os discursos da vida difícil de antigamente que os mais velhos repetem muitas vezes, face à incredulidade indiferente das novas gerações.
Dirigi-me então a um certo indivíduo que as sabia construir. Deu-me algumas explicações e pormenores sobre a sua construção, mas quando lhe pedi que me fizesse uma disse- O tempo da escravidão já acabou!
Estas palavras ainda hoje ecoam no meu espírito. De facto esta gente foi absolutamente escravizada; eram como animais. Enquanto o burguês terratenente, dono do gado, dormia no seu quarto interior, num leito de ferro, em cama de enxergas de palha centeia, recostado num travesseiro, coberto por lençóis de linho e cambraia fina, o pastor da choça dormia no chão, rente ao lar, sobre uma esteira, enrolado numa manta de trapos.
Não insisti. Entendi que seria difícil explicar àquele rústico o interesse pedagógico em reproduzir um estilo de vida à imagem de uma choça de colmo.
Hoje, no actual contexto do país, quando oiço alguns protestar pelos direitos adquiridos, e outros dizer que não houve vitórias em Abril, cada vez mais me convenço da necessidade de construir não uma, mas muitas choças de colmo.
28.11.05
O Jogo das Cavalhadas do Ladoeiro

Jogo das cavalhadas, como é jogado no Ladoeiro. Idanha-a-Nova, Final dos Jogos Tradicionais, Maio de 2005
Quando era pequeno assistia com muito entusiasmo a um jogo tradicional que tinha lugar na minha aldeia. Eram as cavalhadas, momento alto da festa anual, em louvor do Santíssimo Sacramento e de Santo Isidro, patrono dos lavradores, que reunia dezenas de bestas, entre burros, mulas e cavalos, no largo dito da Avenida. O jogo consistia em quebrar, com um tanganho, os potes de barro suspensos de uma corda atravessada no princípio da Rua de Santa Catarina. Todos à vez, ou apenas um em cada carreira, os cavaleiros esforçavam-se por dar golpes certeiros no potes, a fim de os partir e alcançar, dessa forma, o prémio aí resguardado. O pior era quando, em vez do prémio - um casal de pombos ou rolas, um galo, uma onça de tabaco - o pote vazava uma mão cheia de bosta sobre os galhardos jogadores. E quando não era bosta, era cinza, águas sujas, enfim imundícies de vária natureza. Era este o jogo.
Numa aldeia vizinha da minha, perto da raia de Espanha, onde o Tejo principia o seu percurso em Portugal, há também um jogo de cavalhadas, aí chamado de Jogo do Galo. Trata-se do Rosmaninhal e o jogo tem lugar pela Festa de S. João. Aqui a variante obriga a que os cavaleiros, a par ou sozinhos, tirem, com uma lança, uma argola suspensa de uma corda. Quem fizer tal proeza recebe um galo como prémio, aspecto este que empresta o nome ao jogo.
Se no Rosmaninhal este jogo vem sendo realizado desde tempos longínquos, já no Ladoeiro caiu em desuso há cerca de duas décadas. A Associação Terras da Raia recuperou este divertimento popular e levou-o à Final dos Jogos Tradicionais, realizada em Idanha-a-Nova, em Maio último. Inspirada nesta iniciativa, a Comissão de Festas de Verão do Ladoeiro decidiu realizar, este ano, como noutros tempos, as tradicionais cavalhadas, com um sucesso surpreendente, face ao grande número de assistentes que ali se dirigiu, para ver os galhardos cavaleiros dando de esporas às suas montadas, fazendo ressoar na Rua de Santa Catarina os cascos ferrados dos cavalos.
A Associação Terras da Raia também marcou presença com os seus burros, e vários foram os assistentes que fizeram questão de experimentar, no mais tranquilo dorso de um burro, o tradicional jogo das Cavalhadas.
Creio que esta experiência, bastante feliz e pouco dispendiosa – os cavaleiros para participar ainda pagam uma quantia simbólica e a organização apenas paga os potes e os prémios tradicionais - , demonstrou que não são os espectáculos onerosos que o povo quer ver nas sua festas, mas sim as mais vernáculas manifestações da sua raiz popular, não entroncasse este jogo, como creio, nas antigas justas e nos antigos torneios da cavalaria, que tinham lugar em dias especiais e datas festivas, para gáudio e prazer dos povos.
Mercado no Ladoeiro 1930


Ladoeiro, década de 1930, dia de mercado. Espírito Santo. Fotografia de Avelino Serrasqueiro Rossa
As bestas no dia-a-dia das aldeias: um documento
A presença quotidiana dos burros, dos muares, dos cavalos, de uma forma geral, de todas as bestas de carga e tiro, na vida social e económica do Portugal de não há muitas décadas, está documentada não só em textos mas também em fotografias, como tenho demonstrado neste blog. Aqui fica mais um registo.
A Fotografia, da autoria do falecido Sr. Avelino Serrasqueiro Rossa, datável da década de 1930, retrata um dia de mercado na minha aldeia, precisamente junto à Capela do Espírito Santo.
Para além de ter fixado dois exemplares interessantes de carroças para muares, e, lamentavelmente, apenas metade do corpo de um besta enquanto comia uma ração, a fotografia registou aspectos que interessam em variadíssimos planos. Por um lado, a perspectiva da aldeia é interessantíssima e só conheço outra fotografia que se lhe compara e desta apenas difere pela ausência do factor humano. Trata-se de uma fotografia do meu falecido avô, Sr. Jaime Geraldes Canitos, datada da década de 1940. Ambas se transformaram em fontes incontornáveis para o estudo da arquitectura da aldeia, mas há outras igualmente relevantes.
Também o modo de trajar das gentes ficou bem plasmado neste documento. Lá estão as mulheres, com as suas saias rabudas e de lenço pela cabeça. Os homens, com os seus coletes, camisa branca, chapéu. As crianças, com as suas camisas e os seus calções compridos. Tudo bem vestido, em traje de domingo, não fosse o mercado um dia importante na vida da aldeia.
Recentemente, publiquei esta fotografia num estudo que fiz sobre a cultura da Melancia, no quadro da História Agrária de Idanha-a-Nova. Um colega antropólogo, que se interessa pelos os louceiros de Idanha-a-Nova, viu-a e encontrou nela pormenores interessantes para o seu estudo, como as talhas, as bacias, os pratos, a maneira de vender e, claro está, a maneira de transportar: em carroça de mulas. Agora, esta mesma fotografia vai ser exibida numa exposição alusiva aos Louceiros de Idanha-a-Nova.
Vista do Ladoeiro

Ladoeiro: Fotografia de Jaime Geraldes Canitos. Vista do Espírito Santo. Década de 1940.
Nesta fotografia vêm-se, em primeiro plano, ao lado direito, os desaparecidos palheiros do Espírito Santo. Na sua maioria, eram construídos de xisto e de adobes e telhados com telha de meia-cana. Junto a estes, podem observar-se três carros de vacas. Os dois primeiros apenas de estrado, o último já ostenta taipais. No Ladoeiro era mais comummente utilizado o gado vacum nas fainas agrícolas e nos carretos. Terras havia, como o Rosmaninhal, onde sucedia o inverso e eram famosas as suas parelhas de mulas.
25.11.05
Presidente da Junta elogia Museu do Burro

O Presidente da Junta de Freguesia de Ladoeiro, Sr. Luis Guerra, mostra-se muito satisfeito com o trabalho desenvolvido pela Associação Terras da Raia e pelo Museu do Burro.
"A nossa terra não tem grandes palácios, nem castelos, nem monumentos deslumbrantes, mas tem uma riqueza imensa que de modo algum pode ser questionada: são as pessoas. Esta é a nossa verdadeira e maior riqueza. No entanto, julgo que o nosso património cultural fica enriquecido com a implementação deste Museu. Ao mesmo tempo temos uma oferta de qualidade e diversificada para os turistas. Sem dúvida, a Associação Terras da Raia está de parabêns".
Visitas ao Museu e contactos

O Museu do Burro foi instituido por uma associação de desenvolvimento local, sem fins lucrativos, denominada Terras da Raia, numa pequena propriedade (perto de 4 hectares) cedida para o efeito pela Câmara Municipal de Idanha-a-Nova.
A única fonte de receitas da Associação são os donativos de particulares e as dádivas resultantes das actividades desenvolvidas no Museu.
As visitas ao Museu do Burro e os passeios de burro carecem de marcação prévia, que deve ser efectuada, pelo menos, com 24 horas de antecedência.
As marcações podem ser feitas para seguintes telefones: 919460236 ou 916633929
Os passeios de burro são realizados para grupos de 5 ou mais pessoas e têm a duração de duas horas, ou meio dia, compreendendo, neste caso, uma manhã ou uma tarde.
Estes passeios são realizados em caminhos agrícolas da freguesia de Ladoeiro e têm um custo, por pessoa, de 10 euros e 20 euros, respectivamente.
Para além disso, podem ainda ser efectuados pequenos passeios na Quinta do Carvoeiro, onde está localizado o Museu do Burro, no âmbito do ingresso da visita ao Museu, que tem o custo unitário de 7.50 euros.
Para além destas actividades, podem ainda ser realizadas outras, tais como cursos de práticas agrícolas tradicionais, jogos de grupo, passeios de carroça, entre outras.
24.11.05
Notas para estudo do percurso das mulas em Portugal II

Castelo Branco, pormenor de gravura do séc.XIX
Dois muares (eguariços) fazem serviço de sela
Com base no Arrolamento Geral dos Gados e Animais de Capoeira, sabe-se que o número de muares existentes em Portugal em 1852 se cifrava em cerca de 50 mil exemplares. Por seu turno, o número de cabeças de gado cavalar rondava as 70 mil unidades.
Pouco tempo depois, em 1870, estes números elevam-se, respectivamente, para 60 e para 80 mil.
É a partir desta data que o número de muares regista um crescimento exponencial, ultrapassando em larga medida o número de indivíduo de raça cavalar.
Tanto assim é que, já em 1925, o número de muares ronda os 120 mil indivíduos, enquanto o números de cavalos se fica pelos mesmos 80 mil de 1870, cifra esta que ainda se vai encontrar inalterada em 1934, quando, nessa data, o efectivo de muares é já de 130 mil.
Ora, este aumento deve encontrar correspondência no fomento da agricultura que se registou então em Portugal, havendo necessidade de esforços complementares para romper as terras que até ali permaneciam incultas ou para fazer render mais as que já eram cultivadas. Havendo mais lavoura, a produção aumenta e aumentam também os carretos. Para tudo isso se recorria à força de boas parelhas de mulas, donde este aumento tão significativo.
Considerando, por um lado, como atrás ficou dito, que em Portugal sempre se preferiram bons exemplares eguariços, e considerando, por outro, que para tal efeito é necessário recorrer a boas eguadas, e finalmente levando em linha de conta o aumento tão significativo do número de muares num período de tempo relativamente curto, é fácil deduzir o resultado a que chegou a equicultura em Portugal neste período de forte incremento da indústria mulateira.
Com efeito, ao passo que a produção de muares regista um crescimento apreciável, a produção cavalar sofre uma estagnação digna de nota.
Muitos proprietários e lavradores, desacreditados da produção cavalar, em virtude do baixo preço dos equinos, por oposição ao gado muar, com uma forte procura não só em Portugal mas alem fronteiras (o nosso maior mercado externo foi a França), pelo seu maior rendimento nos trabalhos, mandavam beneficiar as suas éguas do contrario, isto é, lançavam-nas a jumento, e só as mandavam beneficiar do natural, ou seja, de cavalo, quem tendo haveres, gostava de possuir bons cavalos.
Para produzir boas muares, as éguas eram lançadas a burros de marca, sobretudo do troco europeu, importados de Espanha para o efeito, ou descendentes de bons exemplares espanhóis ou franceses, que existiam nas paradas particulares ou nos postos de cobrição do Estado.
As feiras de mais nomeada, no que tocava a negócio de muares, em meados do século XX, eram as do Alentejo, nomeadamente de Castro Verde, de Almodôvar e de Garvão. Ali acorria gente de todo o país, procurando bons exemplares, sobretudo negociantes de gado, que ali iam mercar produtos para vender a peso de ouro em outros locais.
A recria de muares também assumiu relativa importância, chegando a ser mais rentável que a de bovinos. Para isso, as crias eram vendidas dos seis aos oito meses pelos produtores, evitando-se a sua completa criação junto das éguas, e depois recriadas e amansadas pelos lavradores para posterior venda, já completamente preparadas para o trabalho.
Mercado da Devesa, Castelo Branco, Decada de 1940

A Devesa era o local onde se realizava o mercado de Castelo Branco. As mercadorias chegavam em carros de mulas das várias partes do Distrito. Eram famosos os carreiros do Rosmaninhal, concelho de Idanha-a-Nova, lugar que a Campanha do Trigo elevou a "Celeiro da Beira Baixa", com resultados hoje visivelmente nefastos, na erosão e nudez dos solos. Nesta reprodução fotográfica, talvez da década de 1940, são mais visíveis os tipos de carros do que as bestas propriamente ditas, mas elas lá estão, quando olhamos atentamente. A qualidade da reprodução não é a melhor, vale mais como testemunho.
Notas para estudo do percurso das mulas em Portugal I

Romaria de Nossa Senhora do Almurtão, Idanha-a-Nova, década de 1960. Romeiros com carros de mulas
As mulas, os machos, ou mulos, alcançaram, em Portugal, um estatuto de enorme utilidade. Apesar disso, o seu uso foi, durante muitos séculos, refreado por disposições legais, mas o próprio Estado acabaria por reconhecer a sua importância e por promover a industria mulateira, quando quis incrementar a actividade agrícola.
De certa forma, a industria mulateira obstaria à produção cavalar e pode ter contribuído para a não formação de uma raça asinina Portuguesa.
(Este artigo foi escrito por mim no ano 2000 e publicado na revista raia, nº27, antes de se haver reconhecido em Portugal a 1ª raça autóctone de burros)
Considerado noutros tempos, a muitos títulos, uma grande valia para a agricultura a para a indústria em Portugal, o gado muar, tal como o asinino, está actualmente em vias de extinção. Mas se para os asininos se vislumbram algumas boas perspectivas, com a implementação de reservas de burros e, inclusivamente, com a promoção da criação de uma raça autóctone portuguesa, designadamente na zona do Douro Internacional, para o gado muar o futuro é pouco animador, prevendo-se o seu desaparecimento a curto prazo.
A muar, a mula, o mulo ou o macho, denonimações pelas quais é conhecido este animal, é o produto, híbrido e estéril, da reprodução entre animais cavalares e asininos, e diz-se eguariço ou asneiros conforme é filho de burro e égua, ou de cavalo e burra.
Os animais eguariços, tendencialmente preferidos em Portugal, são mais fortes e corpulentos, mais elegantes e de maior docilidade que os asneiros. Por norma, aos primeiros são reservados os serviços de lavoura, os trabalhos agrícolas, o tiro de luxo e a sela. Aos segundos, os serviços de carga a dorso e de tiro nos carretos.
Todos, indistintamente, serviam não só os agricultores e pessoas particulares (estudantes, médicos, párocos, etc.)mas também os carreiros, os almocreves, os moleiros, os carvoeiros, os leiteiros, entre outros, e também o exército, em tempo de paz e de guerra.
Não se sabe ao certo quando começou a utilizar-se este gado, mas adivinha-se que tenha sido depois da domesticação das espécies de que procede. O Génesis fala de muares, Homero cita-as no tempo da Guerra de Tróia e Heródoto na Expedição de Ciro à Babilónia.
Na Península Ibérica, julga-se que a industria mulateira tenha sido incrementada pelos romanos, que tinham estes animais em grande estima, e, posteriormente, pelos mouros, os quais, dedicando-se ao ofício de arrieiros, detinham grande número destes animais para aluguer.
Ao longo dos séculos, verifica-se, em Portugal, uma crescente utilização do gado muar, nos diferentes serviços a que se prestava, e apesar das lei coudélicas emanadas no sentido de refrear o seu uso e proteger a produção cavalar, o seu número não parou de crescer, ainda mais quando o Estado reconhece a sua utilidade e reduz a leis protectoras.
A indústria mulateira acaba, assim, por adquirir foros de grande imprortância, sobretudo no sul de Portugal, sendo menor nas regiões do norte, onde predominava o garrano, o cavalo luso-galiziano ou o gado bovino, que o mulo nãos substituiu nos trabalhos.
A preferência dos mulos, em detrimento dos cavalos, deve-se à sua maior rusticidade, longevidade e resistência, e ainda porque a sua utilização é mais precoce. Enquanto um poldro, ou cavalo juvenil, só aos três anos começa a prestar alguns serviços ligeiros, o mulo ao fim de um ano já é atrelado a carretos e principia a sua faina agrícola.
23.11.05
Não só de burros vive o Museu do Burro


A fotografia que editei anteriormente e me veio parar às mãos graças a um amigo, depois de alguém, num congresso de etnomusicologia, a que assistimos os dois, lha ter facultado a ele, é o mote para o próximo texto.
Antes de entrar no discurso, propriamente dito, apenas alguns pormenores: o documento data da década de 1960 e retrata alguns romeiros em direcção à Senhora do Almurtão, em Idanha-a-Nova, festa religiosa das mais badaladas, no seu género, em todo o País.
Posto isto, refira-se que as bestas retratadas não são burros, talvez com excepção para as da retaguarda, mas sim mulas. Ora, sendo este um blog dedicado aos ditos, pode esta fotografia parecer descabida. Acredito que para alguns, menos habituados a lidar com estas bestas, as mulas ali constantes bem pudessem parecer burros e o problema, assim, estaria resolvido. No entanto, para quem percebe um pouco do assunto, a diferença salta à vista. Mas, para estes, o facto das mulas aqui aparecerem em nada estranha, pela simples razão de que para se chegar a uma mula é forçoso passar-se por um burro.
Passo a explicar: a mula, o macho (ou o mulo), consoante é ele animal do sexo feminino ou do sexo masculino, respectivamente, é um produto híbrido e estéril que resulta do cruzamento de um burro e uma égua, dizendo-se, neste caso, eguariço, ou, inversamente, que resulta da mestiçagem de um cavalo com uma burra, designando-se, nesta outra situação, de asneiro ou burrenho.
Amanhã entrarei em mais pormenores sobre estes híbridos, por hoje já chega. Mas não me despeço sem apresentar duas mulas lindíssimas, ambas habitantes do Museu do Burro. A primeira é a Morisca; mula eguariça, de 19 meses, bastante nervosa, mas nobre, com uma pelagem que cada vez mais se revela bonita (um castanho a atirar ao lazão) à medida que vai perdendo aquela espécie de penugem que caracteriza os animais juvenis. A segunda é a Cigana; mula asneira de 21 meses, que começa a atirar para o ruço, mais sossegada que a sua companheira e também mais robusta.
Quando forem grandes, lá para os 30 meses, acredito que não haja arado nem carro bem tonelado que lhes meta medo. Por agora, nada: comer, pinotes e escoicear, se bem que, de cada vez em quando, já são aparelhadas, para se irem habituando. Há tempo para o resto.
Porquê um Museu do Burro

A caminho da Romaria de Nossa senhora do Almurtão, Idanha-a-Nova. Década de 1960. Carros de parelha (2 bestas).
Durante centenas de anos, ou mesmo milhares, o burro acompanhou o homem nas suas tarefas diárias: na agricultura, na indústria, no comércio, no recreio enfim. Eram múltiplos os trabalhos destinadas a este quadrúpede, companheiro robusto e calado do pequeno lavrador, do barreiro, do almocreve, do moleiro, do vigário, do estudante e de tantos outros, a quem pecúlio faltava para governar besta maior, pois lá diz o adágio:"Quem quer um bom cavalo, há-de arranjar um bom palheiro."
Bem, não há regra sem excepção, pois quem se não recorda do mais celebrado dos escudeiros, flor dos governadores, orgulho dos rústicos, chacota da populaça, Sancho Pança, cujo recusou trocar o tesouro dos seus olhos, o burro Ruço, por uma besta mais digna, um cavalo.
Voltando, ao assunto em análise - o papel do burro na economia e na sociedade através dos tempos -verificamos que os últimos cinquenta anos, para não ir mais longe, foram determinantes para o declínio do nosso amigo. Ele foi a extinção de antigas profissões, a generalização da bicicleta, a criação de carreiras de transportes colectivos, o recurso a tractores para as lavouras e carretos e a motores eléctricos para bombar água dos poços, e mais recentemente a utilização de motocultivadoras e motosachadoras em pequenas courelas e hortas familiares. Tudo somado é igual a menos burros. A tal ponto que, hoje, a espécie é considerada, em Portugal -e falando sério, sem gracejos, nem trocadilhos - em vias de extinção.
Não fosse a criação de algumas associações (e daqui faço uma vénia ao trabalho desenvolvido pela a Associação para o Estudo e Protecção do Gado Asinino, sediada em Trás-os-Montes, em Miranda), e o esforço e empenhamento de pessoas singulares (e aqui me incluo a mim próprio, se bem que me resguarda o apoio de uma associação que eu próprio fundei, chamada Terras da Raia, que decidiu criar, com o inestimável apoio da Câmara Municipal de Idanha-a-Nova, o Museu do Burro do Ladoeiro), em poucas décadas este animal seria apenas mais uma memória do passado, dado que o efectivo que existe actualmente se compõe, quase exclusivamente, de animais velhos, machos castrados e fêmeas não reprodutoras.
posted by pedro rego @ 12:56 PM
Museu do Burro

Ladoeiro é uma freguesia do concelho de Idanha-a-Nova, com pouco mais de 1500 habitantes. Outrora, mercê da construção da Barragem Marechal Carmona- na década de 1940- e da inauguração de um perímetro de rega muito considerável (perto de 4000 hectares), foi próspera no plano da agricultura. Ali se cultivou algodão, tomate, fruta diversa, com destaque para a melancia e para o melão, milho e, mais recentemente, tabaco, cultura esta com poucas perspectivas de futuro.
Actualmente, a agricultura atravessa -não so no Ladoeiro- um período de crise e aqui, em particular, tal situação ameaca mandar para o desemprego mais de 500 pessoas- desta e das freguesias vizinhas-, com o fim anunciado da produção de tabaco.
No plano turístico, no panorama das freguesias do concelho de Idanha-a-Nova, onde sobressaiem as aldeias históricas de Monsanto e de Idanha-a-velha- não consegue mais valias relevantes, dado o escasso interesse dos seu legado arquitectónico, civil e religioso, se bem que tem a particularidade de ter uma técnica rara em cosntrução: a da utilização dos adobes, especie de tijolo de terra (barro) seco ao sol.
Desta forma, o Museu do Burro, assume uma importância peculiar, uma vez que se torna uma atracção fora do comum, elevando o Ladoeiro a uma situação de verdadeira singularidade, não obstante a existência de alguns (dois, creio) projectos do género em Portugal.



